26 Novembro 2009

A Onda

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É difícil entender como um tema tão inflamável como o de A Onda pode resultar em algo de tamanha apatia. Esse mesmo material, nas mãos certas, poderia ter originado uma obra incisiva como Elefante e Clube da Luta; mas o filme do estreante Dennis Gansel está a anos-luz de distância desses e dos melhores exemplares da recente safra alemã (Adeus, Lênin!, Edukators, A Vida dos Outros...).

A transposição dos fatos em que se baseia - que aconteceram na Califórnia, final da década de 1960 - para o território alemão cria ecos interessantíssimos, que convergem em paralelos com o surgimento do regime nazista e, conseqüentemente, em uma demonstração prática da aplicação das autocracias.

O que acontece é que Gansel, um diretor visivelmente desprovido de recursos, tenta ancorar todo o seu filme nessa alegoria. Ele sabe que tem uma história instigante nas mãos, mas aparentemente, acha que ela vale por si só. A narrativa então vai decaindo em uma rispidez assustadora em que os acontecimentos se atropelam, perdidos na absoluta falta de cadência. Resta então uma obra estritamente didática. E que precisa ter umas boas aulinhas com o professor Gus Van Sant.

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Die Walles, de Dennis Gansel
Alemanha, 2009

23 Novembro 2009

À Deriva

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Habituado às nóias e à sisudez da metrópole paulista, o cinema do Heitor Dhalia acaba de se mudar para o paradisismo praieiro. À Deriva parece uma tentativa do diretor de se alinhar a um senso de brasileirismo que suas obras (os afetadíssimos NinaO Cheiro do Ralo) desconhecem. Na prática, ele continua bem pálido. A diferença é que se antes Dhalia era wannabe cult, agora ele decidiu que quer ser cool.

E até há espaços para acertos em À Deriva. Além de seu poder plástico (nos aspectos técnicos o diretor nunca falhou, e aqui temos um filme estonteante visualmente), Dhalia pela primeira vez parece disposto a contar uma história. Não que ele tenha escrito um roteiro extraordinário (longe disso, muitas vezes parece recalque de alguma sub-trama de novela do Manoel Carlos), mas é funcional e, em determinados momentos, aborda com alguma delicadeza a descoberta do inferno conjugal e da sexualidade.

Mesmo que seja mínima e que o pedantismo ainda dê as cartas, é possível notar alguma evolução se compararmos com seus trabalhos anteriores. É de se lamentar, portanto, que À Deriva dependa tanto de um certo senso de espontaneidade e desprendimento. Elementos que, por mais que Dhalia busque incessantemente por todo o filme (na praia, nos passeios de bicicleta, no rito do café-da-manhã e, sobretudo, no frescor da parte jovem de seu elenco), ainda se mostra engessado demais para alcançá-los satisfatoriamente.

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À Deriva, de Heitor Dhalia
Brasil, 2009

20 Novembro 2009

2012

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"O que aconteceu com a minha carreira?!"

Hollywood se convenceu de que o melhor que sabe fazer atualmente é destruir o planeta. Para assumir a direção do novo filme-catástrofe, 2012, o perito em apocalipses Roland Emmerich foi escalado, mas nem o pouco que se pode esperar desse tipo de fita 2012 consegue entregar. Se você for ver esperando efeitos especiais virtuosísticos, por exemplo, vai broxar. Qualquer um que tenha visto os trailers já viu as seqüências bem-feitas.

2012 é uma bobagem do tamanho de uma tsunami e se assumir como tal não o torna muito mais tolerável. Pegue qualquer cena de destruição desse filme e tente achar a menor lógica cinematográfica. Não há. É tudo um amontoado de tomadas genéricas entulhadas por alguma desinteligência artificial.

E não venha me dizer que o tio Emmerich não sabe fazer melhor porque algumas bobagens anteriores como O Dia Depois de Amanhã e Independence Day, dentro desse contexto de entretenimento descerebrado para as massas, são mais do que válidas.

O meu maior problema com esse filme, porém, é que ele soa mais desumano do que deveria. Emmerich insistentemente tenta criar vínculos emocionais através dos personagens (tenta até demais), mas dessa vez falhou feio. Desumanidade essa que vai de encontro aos fundamentos spielberguianos que o diretor sempre seguiu com convicção.

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2012, de Roland Emmerich
EUA, 2009


16 Novembro 2009

Tokyo!

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Pelo visto a idéia pegou. Mais um projeto temático composto por curtas, dessa vez saudando a capital japonesa. Diferentemente de Paris, te amo, esse possui poucos episódios (apenas três, cada um com pouco mais de meia hora). O que ambos os filmes têm em comum, infelizmente, é a irregularidade.

A primeira parte, Interior Design de Michel Gondry, surpreende pelo estilo sóbrio e começa e termina muito bem, mas é visível a encheção de lingüiça durante a maior parte de sua duração - acaba sendo irregular por si só. Em seguida é a vez de Merde do Leos Carax, o mais ousado e o único com ênfase política.  É também o mais fraco da trinca.

A premissa é brilhantemente nonsense: um homem misterioso, que aparentemente vive nos esgotos, amedronta toda a cidade com atos terroristas; mas aos poucos a irreverência vai desaparecendo e o capítulo se avacalha de vez em seu encerramento, uma espetada anti-América mais infantil que filme do Roland Emmerich.

Mas pra dar um basta a todo esse desperdício de plots, vem Shaking Tokyo do Joon-ho Bong, uma pequena jóia sobre um homem que se apaixona após 10 anos de total reclusão social. É encantadora a capacidade do sul-coreano de encontrar saídas visuais que tornem palpáveis tanto a psicologia dos personagens, quanto a claustrofobia do cenário. São os 30 minutos que ficam com você.

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Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong
Japão, França, Coréia do Sul, 2008


13 Novembro 2009

(500) Dias com Ela

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Enquanto um ótimo Joseph Gordon-Levitt folheava as páginas de seu relacionamento com uma ótima e irresistível Zooey Deschanel (em seu papel-redenção), me surpreendeu a amargura que (500) Dias com Ela apresenta em momentos-chave de seu desenvolvimento. Não é exatamente um anti-romance, mas visivelmente se dispõe a fugir do que nós poderíamos esperar de uma comédia romântica - eterno reduto dos sonhadores.

Uma crueza que pode até passar desapercebida por causa da deliciosa embalagem pop, acentuada pelo diretor Marc Webb, recém-saído dos videoclipes. Esse background fica evidente nas cativantes seqüências musicais que, claro, são muitas - já que enxurrada de bandas cult é item indispensável a qualquer indie (haja termos...) que se preze.

(500) Dias com Ela segue então nessa toada: às vezes subverte o gênero, outras vezes o abraça, mas sempre me deixou com um sorrisão na cara. Muito em função de ser um filminho gostoso de se ver, mas também por ser a fita mais sincera desse segmento de mercado: a que faz questão de separar os sonhos da realidade.

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(500) Days of Summer, de Marc Webb
EUA, 2009

10 Novembro 2009

Coco Antes de Chanel

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Concebido no embalo do oscar hit Piaf, Coco Antes de Chanel poderia apenas contar a história de seu mito (como a própria cineabio da "Pardal"), mas a diretora Anne Fontaine facilmente supera a natureza formulaica do projeto. Cinematograficamente, Fontaine adota o mesmo conceito de estilo que tornou Coco uma visionária da moda: o apego à simplicidade e ao classicismo em suas formas mais benéficas.

Mesmo se a Tautou (num caso claro de atriz limitada tendo seu nível elevado por conta do material) e os coadjuvantes - em especial o excelente Benoît Poelvoorde - não estivessem tão bem, ainda teríamos aqui um filme muito bem resolvido e estruturado dramaticamente.

Acima de tudo, o grande acerto de Fontaine reside na naturalidade com que ela trata toda a mitologia. Em Coco Antes de Chanel não há momentos histriônicos de talento sendo descoberto ou estalos e epifania de genialidade. Ela encara e nos apresenta Coco como algo muito maior do que uma lenda: uma mulher.

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Coco Avant Chanel, de Anne Fontaine
França, 2009



09 Novembro 2009

O Solista

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Joe Wright acaba de ser rebaixado. Se depois de adaptar Jane Austen e Ian McEwan ele ganhou status revelação, um cineasta com grande capacidade em transformar palavras em imagens; agora, com O Solista, já está sendo rotulado como o cara que só sabe fazer dramas de época com a Keira Knightley. De fato, o filme é bem fraco.

Só funciona mesmo em cenas isoladas, quando Wright parte para sua especialidade - o abstrato (quem viu sabe de quais cenas estou falando) - mas como maestro do longa erra que é um vexame. O que ele queria exatamente ao reportar os abrigos para desamparados? Em muitos momentos parece que estamos diante de um filme-reportagem com muito açúcar.

E nós sabemos que filme açucarado é com ele mesmo - e nunca vi problema nisso. O Solista soa melhor quando é piegas, inclusive. Quando foca seus instrumentos na amizade e, principalmente, no amor pela arte; mas fora isso, é vazio e fora do tom. Nem o Downey Jr. conseguiu salvar.

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The Soloist, de Joe Wright
EUA/UK/França, 2009